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  • Maria Eduarda Oxley

As feridas emocionais de um ambiente familiar disfuncional

“Significado de Funcionalidade, substantivo feminino: Qualidade do que desempenha corretamente a função para a qual foi desenvolvido.”


Um ambiente familiar funcional é entendido como aquele local que suporta as angústias de todos os membros, ao mesmo tempo que movimenta, acolhe. Sabe-se que para o desenvolvimento saúdavel da saúde mental das crianças e adolescentes um dos fatores determinantes é o contexto familiar.


As experiências pelas quais passa um indivíduo desde sua infância, o sistema familiar e as pessoas significativas com quem se relaciona colaboram para a formação da sua visão de mundo e resiliência à possíveis eventos. Tais interpretações dependendo da forma como foram construídas podem ser funcionais e estar dentro da realidade, ou disfuncionais e levar o indivíduo a distorcer a realidade e, como consequência, a ter emoções e comportamentos desadaptativos.


Alguns autores sugerem que relacionamentos familiares adequados são um fator de proteção contra patologias infantis. Pode-se constatar que a família está diretamente relacionada aos transtornos mentais dos filhos, por meio das interações e de clima negativos que podem existir dentro desse sistema.


Entende-se que atritos como conflitos conjugais, incoerência nas tomadas de decisões entre os pais (“quem a criança deve obedecer?”), falta de comunicação e de discernimento na educação, confusão de papéis, dificuldade de entendimento sobre hierarquia familiar (quais são as regras?), podem acarretar prejuízos nas crianças . Algumas consequências de comportamentos disfuncionais dos pais são crianças com baixa autoestima, pobre interação com pares, depressão e problemas de saúde, distúrbio de sono, problemas de comportamento exteriorizado e interiorizado, atraso no desenvolvimento, problemas de relacionamentos.


Jekielek (1998, apud Martins, 2010), investigou os efeitos dos conflitos conjugais e a ruptura dessa relação, sobre a saúde emocional das crianças. Descobriu que esses dois fatores aumentam a ansiedade e depressão em crianças na faixa etária de 6 a 14 anos, e também, que crianças que estiveram em ambientes conflituosos, apresentaram níveis mais baixos de bem estar emocional, se comparado a crianças que vivenciaram elevados níveis de conflitos parentais, mas cujos pais vieram a se divorciar.


A Terapia de Casal e de Família, incluindo também os pais que já são separados, oferece suporte para uma melhor compreensão dos papéis exercidos como marido e mulher e/ou pai e mãe (dentro de um contexto familiar). Importante lembrar que a transgeracionalidade (hábitos, gostos e costumes passados de geração para geração) está sempre latente e a criança vai entender que o modo “certo” de se relacionar é o modo que ela vê os pais se relacionando, portanto, as disfuncionalidades também são absorvidas desde o nascimento.


O desenvolvimento dos filhos dependerá dos pais, da saúde mental desses, de como eles estão psicologicamente, visto que os pais proporcionam a segurança emocional. As feridas emocionais infantis podem ser evitadas mesmo com rompimento da relação do casal para isso é necessário priorizar um bom diálogo, flexibilidade e cuidado.


Texto por Maria Eduarda Oxley, psicóloga clínica, especialista em casal e família e mestranda em saúde e comportamento na UCPEL. Para conhecer mais o trabalho da Maria, siga o instagram @mariaeduarda.psi




REFERÊNCIAS


1. Beck, J. S. (2013). Terapia Cognitivo-comportamental: Teoria e Prática. S. M. Rosa (Trad.). Porto Alegre: Artmed (Obra original publicada em 1995)

2. Feinberg, M. E., Button, T. M., Neiderhiser, J. M., Reis, D., & Hetherington, E. M. (2007). Parenting and adolescent antisocial behavior and depression: evidence of genotype x parenting environment interaction. Archives of General Psychiatry, 64, 457-465. doi: 10.1001/archpsyc.64.4.457

3. MARTINS. Ana Isabel Rodrigues. Impacto do divórcio parental no comportamento dos filhos. Factores que contribuem para uma melhor adaptação. Implicações Médico-legais. 2010. Disponível em: https://repositorioaberto.up.pt/bitstream/10216/26364/2/Tese%20de%20Mestrado%20Ana%20Martins .pdf Acesso em: 29 de Agosto de 2020

4. Teodoro, M. L. M., Land, B. R., Allgayer, M. (2007). Elaboração do Inventário do Clima Familiar para Adolescentes. In XXXVII Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Psicologia, Florianópolis.


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